
Com 15 anos de trajetória, a Mostra de Cinema de Tiradentes consolida sua marca como um dos festivais de cinema brasileiro com perfil mais completo. Não só pela qualidade da curadoria, que seleciona títulos com propostas estéticas singulares, mas sobretudo pela envergadura dos debates. Nesta edição, os longas-metragens das mostras Olhares, Vertentes e Aurora passam por discussões aprofundadas entre realizadores e críticos nas mesas redondas matinais. Mais interessante ainda é perceber a participação do público, que não só comparece em peso aos debates, como também propõe questionamentos pertinentes sobre a linguagem dos filmes em questão.
O formato faz com que o festival consolide um pensamento crítico sobre o cinema brasileiro contemporâneo. Tal postura está bem distante do simples compromisso de exibir filmes – fórmula habitual da maioria dos festivais de cinema do Brasil, onde o debate é pouco valorizado ou até mesmo nem existe. Outro trunfo da Mostra de Cinema de Tiradentes é a organização de seminários temáticos, em que normalmente se cruzam visões diferentes sobre um mesmo assunto. Além do tema central sobre “O Ator em Expansão” que permeou as primeiras discussões propostas pela programação, a Mostra apresentou seminários marcantes, especialmente sobre “O Curta na Era Digital e “Um Olhar sobre o Cinema Brasileiro”.
Curador dos curtas da Mostra entre 2007 e 2011 e atual assessor internacional da Ancine, o crítico Eduardo Valente colocou logo em crise a própria amplitude do tema “O Curta na Era Digital”. “Confesso que não sei o que é o curta-metragem. Por que um vídeo no YouTube que produz um meme não é curta-metragem? As possibilidades são inúmeras”. Para Valente, a noção de “era digital” é datada, pois já é fato de algo que faz parte do mundo. “É que nem discutir sobre a vida. É uma noção tão ampla que o debate em si já é etéreo. Talvez o que seja mais pertinente hoje é discutir o porquê insistir no uso da película. A declaração de falência da Kodak é simbólica”.
O presidente da Associação Curta Minas, Marco Aurélio Ribeiro, pontuou que a relação com o digital é inevitável. “Dificilmente não há nada do audiovisual que não seja digital. A maior parte dos filmes é nesse formato. É um caminho que abre possibilidades não só de produção como de exibição e distribuição”. O diretor Cavi Borges é um dos melhores exemplos de realizador audiovisual que busca formas alternativas de distribuição por meio do digital. “Meu sonho é que meus filmes fossem pirateados. O digital transforma o jeito da gente ver o cinema”, revela Cavi, após narrar uma série de histórias engraçadas sobre como exibiu seus filmes em cineclubes e distribuiu com camelôs. Durante o debate, Cavi até montou um stand improvisado na mesa, onde disponibilizou os filmes de sua produtora Cavídeo por R$ 10.
No seminário “Um Olhar sobre o Cinema Brasileiro”, o debate ficou em torno da internacionalização do cinema nacional e da perspectiva do Estado em ter nossos filmes representados no exterior. A mesa foi composta por representantes de festivais internacionais importantes, como Cannes, San Sebastian, Veneza e Amsterdam. O consultor da Mostra Orizzonti do Festival de Veneza, Paolo Moretti, explicou que os critérios de seleção de um filme no festival são mais de territórios políticos que geográficos. “A única solução que faz sentido é não pensar na categoria cinema brasileiro. É uma ideia nacionalista que só tem importância para a indústria. Estou a procura de algo que me surpreende”.
O curador do World Cinema do Festival Internacional de Amsterdam pontuou que filmes de interesse local dificilmente circulam internacionalmente. “É preciso que o filme tenha algo universal em seu tema. Produzido fora da Europa e dos Estados Unidos, um filme precisa ter várias ferramentas para conseguir entrar no mercado, principalmente tentar co-produção”. A programadora da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, Anne Delseth, afirmou não esperar uma imagem única do cinema brasileiro, mas reforçou a importância do encontro com realizadores e produtores nos festivais. “A descoberta do talento novo está neste contato”, frisa Anne.
* A repórter viajou a convite do evento.
Novos realizadores
Na Mostra Aurora de hoje da 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes, dois longas-metragens serão exibidos: Strovengah – Amor Torto, de André Sampaio (RJ); e A Cidade é uma Só?, de Ardiley Queirós (DF). No primeiro, Pedro e Marcela vivem voluntariamente isolados em decadente casa no alto de uma serra de exuberante e selvagem beleza natural. Ele é um ex-publicitário, que se dedica a escrever um romance. Ela é aspirante a cantora, que se deixa levar pelas obsessões do amante.
O segundo filme é uma reflexão sobre os 50 anos de Brasília, em que o foco é a discussão sobre o processo permanente de exclusão territorial e social que uma parcela considerável da população do Distrito Federal e do Entorno sofre, e de como essas pessoas restabelecem a ordem social através do cotidiano. O ponto de partida dessa reflexão é a chamada Campanha de Erradicação de Invasões (CEI), que, em 1971, removeu os barracos que ocupavam os arredores da então jovem Brasília.
SERVIÇO
O que: 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Quando: até amanhã (28)
Onde: Cine-Praça, Cine-Tenda e Centro Cultural Yves Alves, em Tiradentes
Info.: www.mostratiradentes.com.br
P.S.: Matéria publicada originalmente no jornal O POVO em 27.01.2012
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